domingo, 30 de maio de 2010

O Controle das Sementes e a Crise da Soberania Alimentar

Por Denise Martins Bloise

Perto de sete bilhões de pessoas comendo na mão da Monsanto? Embora assustadora, esta imagem não está longe de se concretizar. Com o advento dos transgênicos, e conseqüentemente da propriedade intelectual das sementes, a humanidade caminha para um futuro tão desolador, que nem mesmo o vidente mais pessimista conseguiu antevê-lo: a existência da espécie dependerá exclusivamente do conhecimento apropriado pelas grandes empresas.

Por trás deste quadro sombrio encontra-se o menoscabo – estratégico para os poderosos – por outros tipos de racionalidade que não a racionalidade científica européia. Como bem afirma Porto-Gonçalves, “com o conhecimento produzido em laboratórios de grandes empresas, em associação cada vez mais estreita com o Estado, a propriedade individual (patentes) se coloca em confronto direto com o conhecimento patrimonial, coletivo e comunitário característico das tradições camponesas, indígenas, afrodescendentes e outras originárias de matrizes de racionalidade distintas da racionalidade atomístico-individualista ocidental.”

Vê-se já que a situação é grave e envolve uma série de questões para nós urgentes: a questão biológica, pois se trata de uma grande ameaça à vida humana; a questão política, pois é o conhecimento que, de atividade essencialmente social, se adultera e se transforma em propriedade de uma ínfima parcela da sociedade; e a questão epistemológica, pois a ciência reducionista estigmatiza o conhecimento tradicional, desvalorizando-o, suprimindo-o, destorcendo-o e não o considerando “merecedor de investigação empírica e aperfeiçoamento.” Consciente dos perigos que rondam nossa época, o Metamorfose passa a divulgar um conjunto de artigos relacionados à questão da soberania alimentar. Trabalhos sobre outros temas importantes, como por exemplo a poluição ambiental, o aquecimento global e a escassez de água, também serão publicados.

O atual modelo agrícola, sustentado pelo uso em larga escala dos agrotóxicos e transgênicos, é inviável. E a atual crise do sistema financeiro é, na verdade, uma crise do sistema produtivo, com reflexos e interferências mútuas. Trata-se de uma crise de longa duração, muito mais profunda do que nos querem fazer acreditar e que traz novos desafios. A presente crise é gravíssima, em função de apresentar uma dimensão ambiental – “climática e energética” – e alimentar. O aquecimento global, por exemplo, envolve uma questão estratégica, que é a crise energética.

E o que faz o agronegócio? Aproveitando-se dessa situação, as grandes corporações da agroquímica se apoderam do controle das sementes, através da introdução dos transgênicos e da propriedade intelectual das sementes. Já sabemos também que esse controle está nas mãos de pouquíssimas transnacionais. Somente a Monsanto controla 90% das sementes transgênicas. E o que isso significa? As “corporations” querem transformar a América Latina e a África num grande celeiro do agrocombustível, para que daqui a uns quinze anos, mais ou menos, quando a crise energética do petróleo estiver mais grave ainda, os setores dominantes possam ter condições de manter o mesmo estilo de vida, sem nenhuma alteração. É algo maquiavélico! Deixa-se de plantar alimentos para a maioria a fim de que uma minoria tenha energia para manter seu estilo consumista de vida. Temos aqui a anunciada crise da soberania alimentar.

Essa é a lógica perversa do capital, que mantém uma maioria miserável em função de uma minoria privilegiada. Mas, é preciso assinalar, maioria miserável até não ameaçar o sistema como um todo, afinal “manter uma horda de famintos não é bom para os negócios”. Daí as políticas salvacionistas, de gotejamento, como o Programa Bolsa-Família do Governo Lula. Através desse programa, pessoas muito pobres podem comer metade do mês, como pudemos ver no filme “Garapa”. É algo semelhante às sessões de tortura que aconteciam no período de ditadura e ainda acontecem nas nossas prisões: o preso já desfalecido de tanto apanhar, levar choques e outras torturas do gênero, recebe “gotas” de água na face para acordar e suportar mais torturas.

O que podemos apreender disso tudo é que na verdade as grandes corporações dos transgênicos, da agroquímica e do agronegócio, que representam a elite dominante, são os “senhores” do capital e se colocam como “senhores” do povo. Existe uma profunda escassez de emprego e uma grande onda de trabalho informal, com total ausência de direitos para os trabalhadores. Os proprietários são, na prática, os donos da existência do trabalhador assalariado, porque podem negar-lhe trabalho e, sem trabalho, sem condições materiais de sobrevivência, o homem perde o direito à existência. Não se pode falar em liberdade se a pessoa vive em condições de extrema pobreza. A liberdade pressupõe igualdade - igualdade de direitos, oportunidades, acesso ao alimento e a uma vida digna. O custo de toda essa crise global do sistema capitalista recai sobre a massa trabalhadora assalariada. O atual padrão de consumo tem de ser questionado e discutido e não deve continuar a ser desigual.

A alimentação da humanidade é uma questão essencial¬mente política. A agricultura de exportação, com suas monoculturas e seus transgênicos, faz com que os países do “Terceiro Mundo” plantem os alimentos que os países do mundo dito desenvolvimento, os dominantes, comerão. Já existe uma política de “terceirização de terras”, através da qual países como Arábia Saudita, Japão, China, Coréia, Líbia e Egito, que precisam importar alimentos, estão buscando comprar e arrendar extensas áreas cultiváveis em países pobres, com terra fértil, tais como o Sudão, Uganda, Camboja, Paquistão e Brasil, para produzir seus alimentos e também para a produção de agrocombustível São as chamadas “offshore farming”, tendência extremamente perigosa, discriminatória, própria dos setores dominantes, do sistema capitalista.

Precisamos de uma proposta de intervenção pública que vise à transformação dessas relações de dominação e exploração. Precisamos nos organizar em formas associativas que visem a uma real transformação societária e na qual o processo seja realmente participativo e emancipatório, onde todos os atores sociais envolvidos tenham o mesmo poder de decisão e a escolha seja feita sem tutela ou coerção.

Picles com Vinagre de Umeboshi

Por Laercio Devita

Certo de que sem crítica não há salvação, costumo andar à cata de artigos que pretendem denunciar os possíveis senões da macrobiótica. Infelizmente, grande parte deles não passa de um casamento entre menoscabo e desconhecimento. Poucos são os que de fato merecem nosso exíguo tempo.

Nessa minha busca, concluí que das críticas externas endereçadas à macrobiótica, as que escorrem da pena de Sally Fallon são, indubitavelmente, as mais inteligentes e estimulantes, sobretudo se considerarmos que Sally, além de nutrir grande respeito pelos princípios expostos nas obras de Ohsawa, Kushi e Aihara, conhece como poucos o dia a dia dos que se dizem macrobióticos.

Para dar-lhes um exemplo do que afirmei acima, pinço uma observação de Sally que muito me impressionou. A atual presidente da Weston A. Price Foundation e autora do polêmico Nourishing Traditions: The Cookbook that Challenges Politically Correct Nutrition and The Diet Dictocrats (algo como: O Livro de Receitas que Desafia a Nutrição Politicamente Correta e os Ditadores de Dietas) nota que, embora os livros de macrobiótica apresentem receitas de picles, a importância desses preparados não é enfatizada e são eles com freqüência completamente esquecidos na prática.
Para tentar corrigir esta falha, divulgo abaixo aquela que é, talvez, a mais fácil receita de picles, oportunamente colhida num artigo de David Briscoe.

A primeira vez que deparei receitas de picles macrobióticos, senti-me intimidado. Adiei pôr as mãos na massa, pois as instruções eram no mínimo desanimadoras. E quando me enchi de coragem para fazê-los, eles, para o meu desespero, deterioraram. Concluí que não havia nascido para fazer picles.

O tempo passou e descobri algumas receitas de picles realmente fáceis de serem feitas. Desde então, não parei de experimentar. Picles de vegetais constituem uma excelente fonte de lactobacilos, aqueles micro-organismos tão fundamentais para a saúde da flora intestinal e digestão.

Abaixo você encontrará uma das mais fáceis receitas macrobióticas de picles. Eu a tenho feito com excelentes resultados.

Picles com Vinagre de Umeboshi:

- 1 ½ - 2 xícaras de vegetais (cebolas, cenouras e couves-flores) lavados e cortados elegantemente;
- 2 – 2 ½ xícaras de água mineral ou da fonte;
- ½ xícara de vinagre de umeboshi.

1°) Ponha os vegetais cortados num pote de vidro;
2°) Cubra-os com a quantidade de água e vinagre de umeboshi indicada;
3°) Cubra com um pequeno pedaço de gaze de algodão a boca do pote. Prenda-o firmemente com um barbante ou elástico;
4°) Ponha o pote num lugar fresco e aguarde dois dias no mínimo e quatro dias no máximo. Este picles pode durar de três a quatro semanas no refrigerador.

Por Onde Andará o Discernimento do Sr. Kushi?

Por Carl Ferré

Incrédulo, assisti a um vídeo no You Tube em que o autodenominado líder mundial da macrobiótica, o Sr. Michio Kushi, desempenhava o papel de garoto-propaganda de um produto chamado Fermena. Mais indignado do que nunca, saí em busca de informações sobre esta mercadoria travestida de alimento que aquele bufarinheiro travestido de educador nos tentava impor. Descobri então que o presidente da George Ohsawa Macrobiotic Foundation já se havia manifestado sobre a mais recente crise de charlatanismo do Sr. Kushi. Sua opinião é o que disponibilizo a seguir.

De uns tempos para cá tenho sido interrogado acerca do respaldo do Sr. Michio Kushi ao Fermena – um novo suplemento alimentar supostamente saudável que tem sido questionado por outros tantos macrobióticos. Está aqui a lista completa dos ingredientes do Fermena: mescla fermentada de laranja, abacaxi, banana, maçã, goiaba, melão, arroz integral, aveia, milho, cevada, ervilha, feijão-jalo, feijão -roxinho, gergelim preto, painço, ameixa, feijão azuki, feijão-soja, cenoura, centeio, feijão-preto, lentilha, abacate, acerola, limão, pera, tomate, uva, manga, melancia, abóbora, batata-doce, grão-de-bico, carambola, castanha-de-caju, castanha-do-pará, kiwi, aipim, pimentão verde, beterraba, folhas de couve-manteiga, repolho, maracujá, chicória, capim-limão, lótus, nabo, algas marinhas, erva-mate, canela, anis, cravo, gengibre, zedoária, água, açúcar, levedura, mel.

Chegamos mesmo a receber uma propaganda do Fermena com o endosso de Michio. Creio ser importante questionar este produto e todos os outros expostos em entrepostos naturais que contenham em sua fórmula qualquer quantidade de açúcar. Com relação ao Fermena, a questão específica a mim dirigida é: “Você acha que Ohsawa o aprovaria?”.

Ohsawa ensinou-nos, por um lado, a “experimentar” e, por outro, a “elevar nosso julgamento”. Sem mesmo prová-lo, entretanto, não há dúvida de que o Fermena é, na categoria “gosto”, interessante, embora apele para os níveis mais baixos de nosso julgamento.

Tudo no mundo relativo em que vivemos existe como contraponto de algo. Fermena (extremamente yin) constitui o contraponto de uma dieta baseada em carnes (extremamente yang) e também, considerando um outro aspecto, da época completamente estressante (yanguizante) a que pertencemos. Como tal, deve ser ele usado por aqueles que se encontram muito yang e por um período muito restrito: seu uso continuado, em minha opinião, constitui um bom caminho para gerar doença e infelicidade.

As recomendações do Sr. Kushi revelam o estado atual de sua saúde e discernimento. Para ser imparcial, devo lembrar que o próprio Ohsawa estava trabalhando num refrigerante do tipo “cola” antes de sua partida, embora tal preparado não contivesse açúcar, o que faz toda diferença. As opiniões de Ohsawa sobre o açúcar são claras inequívocas: “O segredo é bastante simples: evite proteína animal o mais possível e evite completamente o açúcar refinado. O açúcar refinado e o excesso de proteína animal são as duas principais causas dos nossos infortúnios.”
Não acredito que Ohsawa, se vivo fosse, aprovaria o Fermena, e eu próprio não o recomendo, considerando tão somente seus ingredientes. Se existe documentação comprovando que o açúcar e os componentes de origem tropical do Fermena são transmutados no processo de fermentação, a ponto de tornarem-se ingredientes saudáveis, peço gentilmente que ma enviem para avaliação e futuros comentários.

Carl Ferré
Presidente de George Ohsawa Macrobiotic Foundation

O Mito Macrobiótico do Cigarro

por Roy Collins

Introdução do Tradutor:

Creio que a queda de Ohsawa pela nicotina se deve em parte à influência que sobre ele exerceu o escritor chinês Lin Yutang. Ohsawa sempre incluiu o clássico A Importância de Viver entre os seus favoritos. Folheando o livro, verifiquei, não sem espanto, que o mesmo número de páginas que dedicara aos alimentos, Lin Yutang reservara também ao fumo. Seu julgamento é claro: “Todo fumante, nalgum momento de loucura, tentou abjurar de sua lealdade à dama nicotina, e, depois de certa luta com sua imaginária consciência, recuperou a razão.” Capturado talvez pelo vício, Lin Yutang preferiu dar as costas para sua própria tradição, deixando-nos com uma ponta de remorso por conta dos nossos antepassados: “Há relativamente poucos elogios do tabaco na literatura chinesa, pois o hábito de fumar foi introduzido pelos marinheiros portugueses apenas no século XVI.”

Há que se considerar também a preocupação de Ohsawa em afastar do público a idéia de que a Macrobiótica seria uma nova espécie de estoicismo: “Antigamente não podia fumar nem beber, e agora posso. Aprecio qualquer cozinha, ocidental, chinesa, japonesa ou indiana. Gosto de frutas, doces, chocolate e whisky. Se escolho algum destes alimentos, posso evitar más conseqüências, pois conheço o equilíbrio do yin e yang. Conto-lhes isto porque muita gente pensa que a macrobiótica é uma variedade de estoicismo própria do século XX. Mas aquele que não pode fumar, beber, comer fruta ou carne é um coxo. A macrobiótica é uma forma de construir a saúde que nos permite comer e beber de tudo quando o desejemos sem estarmos viciados nem sermos obrigados a fazê-lo. A macrobiótica não é uma forma negativa de viver: é positiva, criativa, artística, religiosa e filosófica.”

Nada disso, entretanto, justifica as lacunas de Ohsawa apontadas por Collins.

Houve tempos em que a expressão “Ohsawa disse” constituía um argumento de autoridade comparável somente aos utilizados pelos fanáticos religiosos. Oxalá tenha chegado a hora de reavaliar algumas idéias do sensei. O artigo de Collins dá uma contribuição importante nesse sentido. Do meu ponto de vista, são duas as principais críticas que o autor dirige às conclusões de Ohsawa sobre o cigarro: não ter aplicado o pensamento sistêmico, que, de resto, o distinguia; e não ter desconfiado, o mínimo que fosse, da validade da classificação inyológica, que, por sua própria natureza poética, não deixa de ser suscetível às mais diversas interpretações.

Em seu livro O Câncer e a Filosofia do Extremo-Oriente, Ohsawa invoca seu lado diabólico e investe contra o seráfico Alberto Schweitzer: “Seguramente a medicina moderna tem matado mais gente do que as guerras. Por que este monstruoso crime? É devido à total ignorância a respeito da vida. Um Schweitzer insiste sobre a importância da vida, porém mata bilhões de vidas microbianas todos os dias. Veja que exclusivismo humano!” (Lida esta passagem, podemo-nos perguntar: quem era de fato diabólico, Ohsawa ou Schweitzer?). Contudo, ao investigar o tabaco, Ohsawa, embora procedendo a uma exaustiva análise inyológica, assume inexplicavelmente a mesma visão limitada que critica em Schweitzer, esquecendo as questões éticas e ambientais – inexplicavelmente, porque Ohsawa costumava levar seus pensamentos até as últimas conseqüências. Basta lembrar aqui a seguinte correspondência por ele apresentada há mais de meio século com relação ao uso indiscriminado do papel: papel-árvore-floresta-desmatamento.

Nunca houve consenso entre os que empregaram a lógica do yin-yang. Aihara há tempos escreveu: “Ohsawa considerava as gorduras mais yang do que os óleos. Eu discordo. Desde que transformar gordura em óleo requer adição de calor, os óleos devem ser, portanto, mais yang do que as gorduras.” Parecem concordar, entretanto, quanto aos efeitos do processo de carbonização: a queima total expulsaria todos os elementos yin, conservando apenas a quintessência yang. Na produção do dentie é esse raciocínio que impera. Tradicionalmente, elabora-se o dentie da seguinte forma: por vários anos os cálices da berinjela são conservados sob pressão misturados com 20% de sal. Depois, submete-se a mistura à desidratação e carbonização. Expondo esta planta extremamente yin à influência do fogo, tempo, sal e pressão, todos fatores muito yang, acredita-se que a potente substância yin da berinjela é completamente eliminada, resistindo apenas sua profunda essência yang. Em sua análise do tabaco, Ohsawa se utiliza de lógica semelhante, a qual, porém, é luminosamente desmitificada por Collins.

A leitura do texto conduz-nos ainda a uma terceira crítica, esta não propriamente dirigida a Ohsawa, senão aos macrobióticos em geral.Vigora ainda em nosso meio, infelizmente, a idéia de que o alimento é todo-poderoso. Acreditamos que o Deus-alimento nos poupará de todas as doenças imagináveis e inimagináveis. Mais uma vez Collins escreve como um iconoclasta e nos fornece olhos para ver que vivemos numa época em que a tragédia ambiental impõe limites à terapêutica macrobiótica. O autocontrole deve romper as fronteiras do indivíduo e chegar à sociedade planetária: autocontrole individual e autocontrole social. Nossa saúde depende da saúde do planeta, e esta depende da espécie de luta que estamos dispostos a travar. Uma ótima arma para nos introduzir na luta em defesa da vida no planeta Terra é o livro de Marie-Monique Robin intitulado O Mundo segundo a Monsanto. Nele a autora relata como a transnacional Monsanto transformou o planeta-azul num enorme depósito de lixo químico. Por mais que nos alimentemos criteriosamente, nossos rins, fígados e intestinos – órgãos que lidam com as impurezas – não são capazes de nos defender, por exemplo, contra as calamidades que saem continuamente da caixa de Pandora da Monsanto. Nossa salvação está em reconhecer a importância da luta ecológica.

Por tudo isso, o artigo de Collins surge como um dos mais autocríticos da literatura macrobiótica. É para ler, assimilar e transmutar.

Reverência pela Vida?

Será que George Ohsawa estava completamente consciente dos perigos do tabaco para a saúde e o meio ambiente toda a vez que acendia um cigarro para contemplar a Ordem do Universo? Como Ohsawa justificava o uso do cigarro, considerando-se a destruição em massa de formas de vida resultante da pulverização de produtos químicos letais nas plantações de tabaco? Não foi ele próprio que escreveu sobre a importância da reverência por todas as formas de vida, e não apenas pela vida humana?

Um Pouco Mais do que Amarelo e Cinza

Ohsawa não procedeu a um longo discurso sobre os prós e os contras do tabaco. O que ele basicamente fez foi ensinar que a fumaça cinza da ponta em brasa do cigarro é yin, enquanto a fumaça amarela tragada pelo fumante é yang.

Ele provavelmente não tinha conhecimento dos mais de três mil produtos químicos presentes no tabaco, incluindo no mínimo sessenta comprovados carcinogênicos. Do contrário, será que endossaria o fumo, como fez seu discípulo Michio Kushi, que fumava Malboro sabendo dos ingredientes nocivos que tal produto continha? Só o açúcar representa 10% dos componentes do cigarro. E não é o açúcar, ao lado do LSD e da maconha, considerado uma droga pela macrobiótica?

Acreditam de fato os macrobióticos, ainda hoje, que o fogo (yang) de um simples fósforo neutralizará aqueles poderosos venenos (yin), enquanto a fumaça amarela é tragada e a fumaça cinza difundida no ambiente, persistindo por horas? Na verdade, é justamente a queima do tabaco que põe em ação a nicotina. De forma semelhante, uma parede de polietileno (yin) possui a função de reter o calor numa construção; mas assim que pega fogo, produz uma fumaça mortal. O fogo não neutraliza os componentes excessivamente yin nem do tabaco nem do polietileno, mas, ao contrário, atualizam sua atividade e poder de emissão.

Ohsawa, sem dúvida, era um sujeito sagaz, e suas experiências tornaram-se lendárias. Mas é preciso muito mais do que sagacidade e experiência para saber que alguns componentes invisíveis da fumaça do cigarro tornam-se carcinogênicos somente após serem ativados por enzimas específicas encontradas em vários tecidos do corpo. Pesquisa dedicada e instrumentos de precisão são imprescindíveis quando se quer mensurar e analisar como esses componentes ativados podem tornar-se parte de moléculas de DNA que interferem no crescimento normal das células.

Outras descobertas científicas indicam que a fumaça cinza gerada pela ponta acesa contém essencialmente os mesmos componentes da fumaça amarela tragada pelo fumante! Ohsawa, ao que parece, não fez seu dever de casa.

O “Inofensivo” Tabaco Natural

Recentemente conversei com dois macrobióticos veteranos que, não por acaso, são também fumantes veteranos. Homens de meia-idade, ambos afirmaram que fumam o que denominam “tabaco natural”, um produto supostamente isento de pesticidas químicos que não contém aditivo algum. Sem que eu me surpreendesse, cada qual defendeu o uso de cigarros acreditando que o tabaco em si não é perigoso, mas sim os produtos químicos contidos nas variantes industrializadas.

Este não deixa de ser um ponto de vista interessante, mas a nicotina por si só já é venenosa e carcinogênica – antes mesmo que sejam adicionados a ela pesticidas químicos. Desde que o tabaco natural não apresenta pesticidas, concentrações maiores de alcatrão e nicotina são encontradas nos cigarros com ele produzidos, bem como doses maiores de monóxido de carbono, cianeto de hidrogênio, amoníaco e hidrocarbonetos carcinogênicos.

Rasgando a Cartilha Macrobiótica

Anos atrás fui pegado de surpresa: meu médico revelou-me que eu havia contraído câncer na bexiga. Logo perguntou se eu havia feito uso do tabaco em algum período de minha vida. Quase todo câncer de bexiga no homem, disse-me ele, advém do hábito de fumar combinado com a exposição a outras toxinas ambientais. Os efeitos do cigarro são cumulativos, e como, à medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico vai-se deteriorando, um dia nossas células de defesa já não conseguem reconhecer nem combater eficazmente as células anormais do tecido da bexiga, prejudicada pelo vício prolongado do tabaco.

Pode parecer à primeira vista que um sistema imunológico potente constitui a chave da prevenção, tratamento e cura do câncer. Mas é claro que evitar as principais toxinas que provocam o crescimento anormal das células pode também exercer um papel considerável na prevenção das doenças.

A literatura macrobiótica recomenda o uso diário de sopa de missô com algas marinhas para ajudar a eliminar a nicotina acumulada no organismo dos fumantes. Há provavelmente uma semente de verdade nesta observação, pois o missô é produzido com soja fermentada, cujo poder antioxidante é extraordinário. No meu caso particular, entretanto, missô mostrou-se largamente ineficaz, sobretudo por tratar-se de alimento envelhecido (yang) e extremamente salgado (yang). Como o câncer de bexiga é provocado pela combinação de extremos yin e yang, isso pode indicar a necessidade de restringir o consumo de sal. Uma xícara de leite de soja fresco, fermentado e sem sal , contudo, fornece grande quantidade de antioxidantes que combatem o tumor em formação.

Um tumor, em geral, pode crescer apenas cerca de dois centímetros na bexiga. A partir daí, ele começa a criar vasos sanguíneos na parede do órgão para poder alimentar-se e continuar crescendo. Esse processo é denominado angiogênese. A soja é um dos únicos vegetais conhecidos que possui propriedades antiangiogênicas.

Há alguns meses tenho experimentado leite de soja caseiro e fermentado com amazake, pequenas quantidades de frutas frescas, ervas locais e malte de arroz. Com ingerir essa combinação, cheguei a recuperar os quinze quilos que havia perdido após duas internações.

Tofu, por outro lado, além de mais refinado, não é fermentado. A meu ver, ele não deveria ser usado em excesso por macrobióticos de qualquer região.

Limites de Macrobiótica

Porque vivemos num mundo hostil e altamente mecanizado, com resíduos industriais e carcinogênicos, somos testemunhas do suicídio coletivo que ocorre especial e subliminarmente através dos alimentos comerciais e do abastecimento de água. Nem mesmo o indivíduo mais consciente de nosso pequenino grupo de macrobióticos está imune à descarga, no ambiente, de toxinas invisíveis provenientes de fábricas, aviões, aerossóis, automóveis e outros agentes poluidores. Macrobióticos têm certas limitações que não podem ser perdoadas. A medicina alopática tem seu lugar também, e eu sou muito agradecido a ela. Permaneço vivo hoje por sua causa. Enquanto não formos capazes de eliminar radicalmente a poluição de nossos corpos e do planeta, temos de considerar a necessidade de métodos drásticos de tratamento.

Somos pessoas de carne e osso – e não super-homens! Nossos tecidos, órgãos, funções e sistemas são reais, não meras ficções. Se ninguém ainda teve a coragem de dizer que o rei está nu, deixem-me ser o primeiro: macrobióticos também ficam doentes, sofrem acidentes, divorciam-se, contraem câncer, são assassinados por terroristas, ficam carecas e morrem em guerras e terremotos.

DNA e predisposições hereditárias também desempenham um enorme papel no nosso destino sobre a Terra. No meu caso, a dieta nº 7 (exclusivamente arroz integral) fracassou, bem como a rigorosa dieta fornecida generosamente pelo grupo de Michio Kushi.

De fato, após três meses sob uma específica, focada e restrita dieta macrobiótica, meu urologista descobriu que o tumor tinha crescido numa velocidade maior do que anteriormente, quando eu vivia de um regime macrobiótico mais flexível. A Medicina Tradicional Chinesa foi praticamente inútil, embora eu tenha obtido resultados com uma simples erva chamada astragulus. Eu fervo, junto com kukicha, quatro ou cinco fatias dessa erva e sorvo o resultado cinco vezes diariamente. Astragulus é conhecido como um poderoso estimulante do sistema imunológico.

Podemos nos proteger do que contamina nosso planeta somente até certo ponto. Todos caminhamos por aí vulneráveis a vários níveis de chumbo, mercúrio, estrôncio 90 e DDT de épocas passadas. Por isso devemos combater, denunciando e protestando individual e coletivamente, tudo o que consideramos destrutivo para o nosso planeta. Eu, de minha parte, alerto contra o tabaco, pesticidas químicos, alimentos transgênicos, resíduos poluentes e contra a discriminação em todas as suas formas. O ato de fumar é um endosso do desrespeito pela vida.

A maioria dos fumantes macrobióticos está profundamente iludida em acreditar que o ato de fumar é uma inofensiva forma yang de prazer. Os fatos que apresentei indicam justamente outra coisa. Estou completamente convencido de que as estatísticas apresentadas são confiáveis e não parte de uma campanha difamatória, como um de meus amigos sugeriu. Deve ser verdade que há um poderosíssimo componente yang no cigarro, mas há 500 vezes mais extremo yin para aniquilar o yang! Após dois ou três cigarros, o alcatrão e resíduos do tabaco começam a tornar o sangue ácido. Uma condição ácida, como sabemos, requer minerais yang para contrabalançá-la. Estes minerais são fornecidos, principalmente pelo cálcio dos ossos. A correlação entre tabaco e osteoporose, assim como entre tabaco e a redução de vitaminas, especialmente a vitamina C, está bastante documentada. Fumar é viajar por uma estrada em cujo fim se encontra a morte.

Com sorte, esta informação servirá para ampliar a visão dos fumantes macrobióticos e encorajá-los a abandonar o cigarro. Talvez eu alcance apenas um deles, mas esse passará a mensagem à diante, e essa mensagem ajudará a salvar outros do sofrimento e morte prematura desnecessários.

A Perda do controle sobre a Mente (por Gandhi)

Como os médicos nos fazem perder a paciência! Às vezes chego a pensar que os curandeiros são melhores que os médicos de maior prestígio.

Vejamos: a tarefa do médico é cuidar do corpo ou, para falar verdade, nem sequer isso. Seu dever consiste realmente em livrar o corpo das enfermidades que podem atormentá-lo.

Como essas enfermidades aparecem? Seguramente por causa de nossa negligência ou abuso. Empanturro-me, sofro de indigestão, vou ao médico, tomo pílulas, curo-me. Volto a me empanturrar. Volto a tomar pílulas. Se eu não tivesse tragado pílulas da primeira vez, teria de sofrer o castigo que bem merecia, e não tornaria a exceder-me.

Mas interveio o médico, que me ajudou a abusar de mim mesmo. Meu corpo sentiu-se, desse modo, menos desconfortável. Minha mente, porém, debilitou-se.

A continuidade no uso de tais medicamentos traz como resultado a perda do controle sobre a mente.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Dieta do Dr. Akizuki contra a Bomba de Plutônio - Por: Laercio de Vita

Acabo de comprar na Zebra Books de Cambridge, Reino Unido, um livro há muito desejado: Nagasaki 1945, de Tatsuichiro Akizuki. Comprei-o sem sequer sair de casa – graças, é claro, a este milagre chamado Internet.

Aqueles familiarizados com a história da Macrobiótica decerto já ouviram falar do Dr. Akizuki. Esta personagem tornou-se famosa sobretudo por suas declarações a respeito do missô .

Quando da hecatombe nuclear que atingiu Nagasaki, não muito longe do local da explosão, o Dr. Akizuki socorreu os doentes e moribundos incansavelmente, lutando contra uma doença ainda desconhecida nas ruínas de uma construção sem leitos, com poucos alimentos e nenhum medicamento. Apesar de tudo, ele e sua equipe continuaram vivos e não apresentaram nenhuma sequela dos efeitos da radiação. O D. Akizuki conjecturou que foi protegido contra a radiação mortal pela sopa de missô que ingeria diariamente.

Em 1972, as intuições do Dr. Akizuki foram confirmadas por pesquisadores que encontraram no missô um alcaloide – o ácido dipicolínico – entre cujas propriedades encontra-se a de eliminar do corpo humano metais pesados tais como o estrôncio radioativo.

A saga do Dr. Akizuki foi narrada em Nagasaki 1945. Se tempo me sobrasse, gostaria de traduzir a obra na íntegra. Oferecer-lhes-ei, por enquanto, um de seus trechos célebres. (A propósito, as experiências do Dr. Akizuki foram transplantadas para as telas pelo diretor Arihara Senji. Senji lançou em 2006 a animação Nagasaki 1945 – The Angelus Bells, baseada amplamente na autobiografia do médico macrobiótico).

O Dr. Tatsuichiro Akizuki Conta suas Experiência após a Explosão da Bomba Atômica em Nagasaki

Lá pela segunda quinzena de agosto, a enfermeira-chefe, o Irmão Iwanaga, a senhorita Murai e eu começamos a nos sentir cada vez mais cansados. A princípio, pensei que o fato de ter dormido ao relento por aproximadamente uma semana me deixara fatigado e com o corpo inteiro aguilhoado por dores, como se me golpeado tivessem. Até então, eu não havia relacionado nenhum desses sintomas com qualquer espécie de radiação. Mas logo comecei a considerar meu desvigor e os outros sinais objetivamente.
Houve um tempo em que trabalhei como assistente do Professor Nagai, chefe do departamento de radioterapia no Hospital Universitário de Nagasaki. Ali topei com um sintoma conhecido como Roentgen catarrh. Tal estado surgia quando os raios X eram empregados para sondar as condições das vitimadas pelo câncer de útero e seio. O uso continuado dos raios X provocava nas pacientes, depois de vários dias, uma sensação de mal-estar a que chamávamos Roentgen catarrh. Naquela época, o hospital universitário encontrava-se tão falto de médicos que a mim competia examinar um grande número de doentes – e, em virtude do excesso de trabalho, eu próprio comecei a dar mostras de esgotamento. Eu radiografava muitos pacientes de segunda a sexta e no sábado analisava os resultados, mantendo um grupo de discussão. Na verdade, nunca tive uma constituição muito forte e, numa sexta-feira, percebi que algo não ia bem. Quando comentei com um companheiro de trabalho mais velho, ele ponderou que deveria ser Roentgen catarrh. Em 15 de agosto de 1945, aproximadamente, tornou-se claro para mim que os sintomas que eu apresentava eram exatamente iguais aos do Roentgen catarrh.

Os raios X consistem, em termos de física clássica, em ondas eletromagnéticas de curtíssimo comprimento que passam através das células do corpo humano e podem destruí-las. O tipo de célula destruído pelos raios Roentgen correspondia às células teciduais, nas quais frequentemente ocorre fissão. Algo semelhante começara a acontecer após a explosão da bomba atômica. Contudo, não tinha ainda eu conseguido descobrir que espécie de raios a bomba atômica havia produzido. Realizei um diagnóstico e concluí: poderiam ser raios radium, raios gama, raios Roentgen ou similares que provavelmente destruíam qualquer tecido hematogênico do corpo humano. Como consequência, muitos pacientes do hospital passaram a apresentar sintomas como os da púrpura.

Àquela altura , eu não dispunha de qualquer maquinaria para contagem de corpúsculos nem de aparato para tingi-los, o que me impedia de examiná-los sob o microscópico: tive de contar com minha própria imaginação e poder de dedução. Tentei lembrar-me de como tínhamos tratado do Roentgen catarrh. Certa vez, no departamento de radiologia, quando eu e os pacientes ficamos aflitos com a doença, bebi e os fiz beber uma solução salgada com mais sal do que o encontrado em soluções fisiológicas – e isso se mostrou eficaz. Naquele tempo, de fato, o uso de uma solução salina para combater o Roentgen catarrh era aceito pelos médicos como o melhor remédio.

Então, espalhei como pude a seguinte notícia: “Sal é bom para as vítimas da bomba.”

Eu não possuía nenhum conhecimento de biofísica ou biologia atômica – não havia livros nem tratados sobre doenças provocadas por radiação atômica. Estava, porém, convencido da validade do meu método dietético – dietética mineral - , que pode ser assim sistematizado: o sal fortalece as células responsáveis pela hematogênese, ao passo que o açúcar as degenera.

Senti a confiança brotando em meu peito. Dei ordens expressas às cozinheiras para que adicionassem sal aos bolinhos de arroz integral, servissem uma espessa sopa de missô em cada refeição e jamais utilizassem qualquer espécie de açúcar. Quando elas faltavam ao dever, eu as repreendia impiedosamente: “Nunca façam uso de qualquer açúcar, nenhum doce!”

- O que há de tão comprometedor no açúcar? perguntavam-me todos. Por que é o sal tão eficaz na cura de doenças atômicas?

Não me sentindo inclinado a explicar detalhadamente as razões, eu simplesmente dizia: “Açúcar não é bom para vocês. Dou-lhes minha palavra: o açúcar lhes destrói o sangue.”

Este método mineral de cura das doenças atômicas, que surgiu, aliás, como um relâmpago em minha mente, foi posto em prática por mim e por aqueles que aceitaram minha visão.

Vários outros métodos de cura das doenças atômicas foram experimentados: o método do Professor Nagai, que lançava mão de vitamina B1 e glicose; o método do Professor Kageura, conhecido por utilizar a seiva das folhas de caqui, ricas em vitamina C; e o método que advogava o consumo do saquê japonês.

Meu método mineral, entretanto, possibilitou que eu permanecesse vivo e seguisse em frente dando minha contribuição como médico no Hospital de Nagasaki – a despeito de eu não possuir uma constituição muito forte e ter, de mais a mais, sofrido os efeitos da explosão atômica a uma distância de aproximadamente 1.600 metros. A radiação, levando-se em conta esta distância, pode não ter sido fatal; de qualquer forma, desde a explosão, o Irmão Iwanaga, o Sr. Noguchi, a enfermeira-chefe, a senhorita Murai e eu – bem como o resto da equipe e todos os pacientes – continuávamos vivos em meio às cinzas contaminadas da cidade em ruínas.

Acredito que foi graças à cura pelo sal – a dieta de Akizuki – que cada um de nós conseguiu socorrer os enfermos dia após dia, superando a fadiga e os sintomas da doença atômica e , em todo caso, sobrevivendo à tragédia nuclear. Eu e aqueles que me cercavam acreditamos nisso, embora os acadêmicos - não poderia ser diferente - ainda duvidem.