segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Dieta do Dr. Akizuki contra a Bomba de Plutônio - Por: Laercio de Vita

Acabo de comprar na Zebra Books de Cambridge, Reino Unido, um livro há muito desejado: Nagasaki 1945, de Tatsuichiro Akizuki. Comprei-o sem sequer sair de casa – graças, é claro, a este milagre chamado Internet.

Aqueles familiarizados com a história da Macrobiótica decerto já ouviram falar do Dr. Akizuki. Esta personagem tornou-se famosa sobretudo por suas declarações a respeito do missô .

Quando da hecatombe nuclear que atingiu Nagasaki, não muito longe do local da explosão, o Dr. Akizuki socorreu os doentes e moribundos incansavelmente, lutando contra uma doença ainda desconhecida nas ruínas de uma construção sem leitos, com poucos alimentos e nenhum medicamento. Apesar de tudo, ele e sua equipe continuaram vivos e não apresentaram nenhuma sequela dos efeitos da radiação. O D. Akizuki conjecturou que foi protegido contra a radiação mortal pela sopa de missô que ingeria diariamente.

Em 1972, as intuições do Dr. Akizuki foram confirmadas por pesquisadores que encontraram no missô um alcaloide – o ácido dipicolínico – entre cujas propriedades encontra-se a de eliminar do corpo humano metais pesados tais como o estrôncio radioativo.

A saga do Dr. Akizuki foi narrada em Nagasaki 1945. Se tempo me sobrasse, gostaria de traduzir a obra na íntegra. Oferecer-lhes-ei, por enquanto, um de seus trechos célebres. (A propósito, as experiências do Dr. Akizuki foram transplantadas para as telas pelo diretor Arihara Senji. Senji lançou em 2006 a animação Nagasaki 1945 – The Angelus Bells, baseada amplamente na autobiografia do médico macrobiótico).

O Dr. Tatsuichiro Akizuki Conta suas Experiência após a Explosão da Bomba Atômica em Nagasaki

Lá pela segunda quinzena de agosto, a enfermeira-chefe, o Irmão Iwanaga, a senhorita Murai e eu começamos a nos sentir cada vez mais cansados. A princípio, pensei que o fato de ter dormido ao relento por aproximadamente uma semana me deixara fatigado e com o corpo inteiro aguilhoado por dores, como se me golpeado tivessem. Até então, eu não havia relacionado nenhum desses sintomas com qualquer espécie de radiação. Mas logo comecei a considerar meu desvigor e os outros sinais objetivamente.
Houve um tempo em que trabalhei como assistente do Professor Nagai, chefe do departamento de radioterapia no Hospital Universitário de Nagasaki. Ali topei com um sintoma conhecido como Roentgen catarrh. Tal estado surgia quando os raios X eram empregados para sondar as condições das vitimadas pelo câncer de útero e seio. O uso continuado dos raios X provocava nas pacientes, depois de vários dias, uma sensação de mal-estar a que chamávamos Roentgen catarrh. Naquela época, o hospital universitário encontrava-se tão falto de médicos que a mim competia examinar um grande número de doentes – e, em virtude do excesso de trabalho, eu próprio comecei a dar mostras de esgotamento. Eu radiografava muitos pacientes de segunda a sexta e no sábado analisava os resultados, mantendo um grupo de discussão. Na verdade, nunca tive uma constituição muito forte e, numa sexta-feira, percebi que algo não ia bem. Quando comentei com um companheiro de trabalho mais velho, ele ponderou que deveria ser Roentgen catarrh. Em 15 de agosto de 1945, aproximadamente, tornou-se claro para mim que os sintomas que eu apresentava eram exatamente iguais aos do Roentgen catarrh.

Os raios X consistem, em termos de física clássica, em ondas eletromagnéticas de curtíssimo comprimento que passam através das células do corpo humano e podem destruí-las. O tipo de célula destruído pelos raios Roentgen correspondia às células teciduais, nas quais frequentemente ocorre fissão. Algo semelhante começara a acontecer após a explosão da bomba atômica. Contudo, não tinha ainda eu conseguido descobrir que espécie de raios a bomba atômica havia produzido. Realizei um diagnóstico e concluí: poderiam ser raios radium, raios gama, raios Roentgen ou similares que provavelmente destruíam qualquer tecido hematogênico do corpo humano. Como consequência, muitos pacientes do hospital passaram a apresentar sintomas como os da púrpura.

Àquela altura , eu não dispunha de qualquer maquinaria para contagem de corpúsculos nem de aparato para tingi-los, o que me impedia de examiná-los sob o microscópico: tive de contar com minha própria imaginação e poder de dedução. Tentei lembrar-me de como tínhamos tratado do Roentgen catarrh. Certa vez, no departamento de radiologia, quando eu e os pacientes ficamos aflitos com a doença, bebi e os fiz beber uma solução salgada com mais sal do que o encontrado em soluções fisiológicas – e isso se mostrou eficaz. Naquele tempo, de fato, o uso de uma solução salina para combater o Roentgen catarrh era aceito pelos médicos como o melhor remédio.

Então, espalhei como pude a seguinte notícia: “Sal é bom para as vítimas da bomba.”

Eu não possuía nenhum conhecimento de biofísica ou biologia atômica – não havia livros nem tratados sobre doenças provocadas por radiação atômica. Estava, porém, convencido da validade do meu método dietético – dietética mineral - , que pode ser assim sistematizado: o sal fortalece as células responsáveis pela hematogênese, ao passo que o açúcar as degenera.

Senti a confiança brotando em meu peito. Dei ordens expressas às cozinheiras para que adicionassem sal aos bolinhos de arroz integral, servissem uma espessa sopa de missô em cada refeição e jamais utilizassem qualquer espécie de açúcar. Quando elas faltavam ao dever, eu as repreendia impiedosamente: “Nunca façam uso de qualquer açúcar, nenhum doce!”

- O que há de tão comprometedor no açúcar? perguntavam-me todos. Por que é o sal tão eficaz na cura de doenças atômicas?

Não me sentindo inclinado a explicar detalhadamente as razões, eu simplesmente dizia: “Açúcar não é bom para vocês. Dou-lhes minha palavra: o açúcar lhes destrói o sangue.”

Este método mineral de cura das doenças atômicas, que surgiu, aliás, como um relâmpago em minha mente, foi posto em prática por mim e por aqueles que aceitaram minha visão.

Vários outros métodos de cura das doenças atômicas foram experimentados: o método do Professor Nagai, que lançava mão de vitamina B1 e glicose; o método do Professor Kageura, conhecido por utilizar a seiva das folhas de caqui, ricas em vitamina C; e o método que advogava o consumo do saquê japonês.

Meu método mineral, entretanto, possibilitou que eu permanecesse vivo e seguisse em frente dando minha contribuição como médico no Hospital de Nagasaki – a despeito de eu não possuir uma constituição muito forte e ter, de mais a mais, sofrido os efeitos da explosão atômica a uma distância de aproximadamente 1.600 metros. A radiação, levando-se em conta esta distância, pode não ter sido fatal; de qualquer forma, desde a explosão, o Irmão Iwanaga, o Sr. Noguchi, a enfermeira-chefe, a senhorita Murai e eu – bem como o resto da equipe e todos os pacientes – continuávamos vivos em meio às cinzas contaminadas da cidade em ruínas.

Acredito que foi graças à cura pelo sal – a dieta de Akizuki – que cada um de nós conseguiu socorrer os enfermos dia após dia, superando a fadiga e os sintomas da doença atômica e , em todo caso, sobrevivendo à tragédia nuclear. Eu e aqueles que me cercavam acreditamos nisso, embora os acadêmicos - não poderia ser diferente - ainda duvidem.

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