segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pegando fogo (comentários de Laercio Devita (Rest.Metamorfose) )

Por que os humanos são diferentes de todos os outros primatas? Ora bolas, porque eles cozinham!

por Dwight Garner (New York Times, 26 de maio de 2009)

Com o lançamento no Brasil pela editora Zahar de PEGANDO FOGO: Por que cozinhar nos tornou humanos, o Metamorfose se propôs traduzir a resenha sobre o livro publicada no New York Times. Trata-se de uma obra no mínimo polêmica cuja leitura, certamente, enriquecerá todos aqueles interessados pelo tema “alimentação”.

Não somos, evidentemente, os seres mais bem equipados da natureza. Não ostentamos garras nem couraças. O fato mesmo de comermos carne deveria causar surpresa; afinal de contas, não fomos planejados para dilacerá-la em seu estado natural: nossas mandíbulas são frágeis, nossos dentes obtusos, nossas bocas pequenas.

Considerar estes fatores, para muitos, é o mesmo que defender o vegetarianismo ou o crudivorismo. Deveríamos colher e comer como nossos ancestrais. Entretanto, para Richard Wrangham, professor de antropologia biológica e autor do polêmico PEGANDO FOGO, tais evidências demonstram algo bastante diferente. Elas ajudam a provar que somos, como o próprio Wrangham vividamente diz, “símios cozinheiros ou criaturas do fogo.”

O título do novo livro de Wrangham – PEGANDO FOGO: Por que cozinhar nos tornou humanos – soa um tanto piegas. Dá margem para pensar que se trata de um estudo sobre receitas e amantes. Não é nada disso, porém. PEGANDO FOGO constitui um claro e fascinante ensaio científico que apresenta nada mais nada menos que uma nova teoria da evolução humana, teoria que o autor batizou de hipótese do cozimento e que Darwin, entre outros, simplesmente não considerou. Wrangham argumenta que os símios começaram a se transformar em homens – o Homo erectus emergiu há cerca de dois milhões de anos – em razão de um dado fundamental: nós aprendemos a dominar o fogo e a cozinhar nosso alimento.

“Cozinhar”, observa o antropólogo,” torna o alimento mais seguro, desentranha-lhe sabores sutis e insuspeitados e preserva-o da deterioração. Submeter ao calor o alimento rijo permite-nos abri-lo, cortá-lo e amassá-lo. Nenhuma dessas vantagens, porém, é tão importante quanto um aspecto pouco apreciado: cozinhar aumenta a quantidade de energia que nosso corpo extrai do alimento.”

Wrangham continua: “A energia extra trouxe para os primeiros cozinheiros vantagens biológicas. Obtiveram eles melhores resultados quanto à reprodução e sobrevivência. Seus genes espalharam-se. Seus corpos reagiram adaptando-se biologicamente ao alimento cozido e tirando o máximo proveito da nova dieta. Houve mudanças anatômicas, fisiológicas, ecológicas, históricas, psicológicas e sociais.” Wrangham sustenta que a ingestão de alimentos cozidos – seja carne, seja vegetais ou ambos – tornou a digestão mais fácil, o que concorreu para reduzir as dimensões de nossas entranhas. A energia que anteriormente despendíamos com a digestão ( e a digestão requer muito mais energia do que poderíamos supor ) encontrava-se agora disponível, permitindo que nossos cérebros, também grandes consumidores de energia, adotassem uma configuração impressionante. O calor proporcionado pelo fogo fez que perdêssemos os pelos do corpo. Assim, passamos a correr maiores distâncias e a caçar com mais freqüência, sem, no entanto, sofrer as conseqüências do excesso de calor corporal. Deixamos de comer no local em que colhíamos para reunirmo-nos ao redor de uma fogueira. Com isso, a socialização se impôs e nosso temperamento abrandou-se.

Houve ainda outros benefícios para os nossos ancestrais. Wrangham aponta-os: “Com a proteção do fogo, à noite eles passaram a dormir sobre o chão, e a habilidade de subir em árvores foi desaparecendo. As fêmeas provavelmente começaram a cozinhar para os machos, e estes, senhores de um tempo cada vez maior, empregaram-no na busca por mais carne e mel. Enquanto outros grupos pré-humanos continuaram por centenas de milhares de anos ingerindo alimentos crus, outro grupo, mais feliz, transformou-se em Homo erectus – e o planeta não foi mais o mesmo.” Lê-se tudo isso e pergunta-se: existe aí algo de realmente original? Wrangham parece tão surpreso quanto nós. “O que é extraordinário”, escreve o pesquisador, “é que esta teoria é nova.”

Wrangham chegou a ela percorrendo a obra de outros antropólogos e naturalistas, incluindo Claude Lévi-Strauss e Darwin. Este último nunca deu muita atenção ao cozimento, acreditando que teríamos sobrevivido bem sem ele.

PEGANDO FOGO, portanto, dirige uma crítica profunda e maravilhosamente brutal ao crudivorismo e seus asseclas. A obra inclui provas de que uma restrita dieta de alimentos crus não é capaz de garantir um suprimento adequado de energia, e ainda registra que, numa pesquisa, 50% das mulheres mantidas sob tal dieta pararam de menstruar. Nossos ancestrais não teriam como sobreviver – e muito menos como se reproduzir – contando apenas com alimentos crus. Wrangham adverte que uma dieta crua provoca urinação freqüente, além de problemas no dorso e quadril. Mesmo náufragos, segundo ele, têm necessidade de cozinhar seu alimento para sobreviver: “Não encontrei sequer um relato sobre pessoas que viveram longos períodos à base de alimentos crus.” Thor Heyerdahl, cruzando o pacífico em cima de uma jangada, contou com a companhia de um pequeno fogão e de uma panela. Alexander Selkirk, inspiração para Robson Crusoé, construiu uma fogueira e sobre ela cozinhou seus alimentos.

Wrangham também rejeita a popular hipótese do homem-caçador. De acordo com ela, o consumo de carne constituiria o único fator responsável pela evolução. A carne “teve menos impacto sobre nossos corpos do que os alimentos cozidos”, garante o antropólogo. “Mesmo os vegetarianos prosperam com uma dieta cozida. Somos muito mais cozinheiros que carnívoros.” Entre as mais provocativas passagens de PEGANDO FOGO estão aquelas que examinam a evolução do papel dos gêneros. Cozinhar tornou a mulher mais vulnerável, observa pesarosamente Wrangham, à autoridade masculina.

“Contar com alimento cozido criou oportunidades de cooperação; mas, justamente por ser importante, o novo hábito expôs quem cozinhava à exploração”, explica o autor. “Cozinhar toma tempo. Conseqüentemente, quem cozinhava não podia, sem ajuda, proteger seus produtos da investida de homens famintos.” Mulheres passaram, então, a necessitar da proteção masculina. O casamento, ou aquilo que Wrangham chama de proteção primitiva, foi a solução encontrada. Sem espaço para examinar todas as nuanças da teoria de Wrangham, noto, no entanto, que ele não se sente nem um pouco feliz em constatar que cozinhar “enlaçou a mulher num papel subserviente imposto pela cultura do domínio masculino.

“Cozinhar”, insiste o pesquisador, “criou e perpetuou o original sistema da superioridade da cultura masculina. Não se trata, com certeza, de uma bela e tranqüila paisagem.” PEGANDO FOGO é um livro com número de páginas convidativo que expõe conhecimentos científicos sólidos, embora escrito numa prosa clara e direta. É um saboroso e criteriosamente elaborado alimento para nossos ávidos cérebros.

“Zoologistas freqüentemente tentam captar a essência de nossa espécie utilizando expressões como macacos de cérebros expandidos”, lembra-nos Wrangham. Mas logo acrescenta, lançando mão de uma sentença que pressupõe ser Mick Jagger uma anomalia e que resume muito bem sua impressionante erudição: “ Fariam eles melhor se nos chamassem de macacos de bocas contraídas.”

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