por Roy Collins
Introdução do Tradutor:
Creio que a queda de Ohsawa pela nicotina se deve em parte à influência que sobre ele exerceu o escritor chinês Lin Yutang. Ohsawa sempre incluiu o clássico A Importância de Viver entre os seus favoritos. Folheando o livro, verifiquei, não sem espanto, que o mesmo número de páginas que dedicara aos alimentos, Lin Yutang reservara também ao fumo. Seu julgamento é claro: “Todo fumante, nalgum momento de loucura, tentou abjurar de sua lealdade à dama nicotina, e, depois de certa luta com sua imaginária consciência, recuperou a razão.” Capturado talvez pelo vício, Lin Yutang preferiu dar as costas para sua própria tradição, deixando-nos com uma ponta de remorso por conta dos nossos antepassados: “Há relativamente poucos elogios do tabaco na literatura chinesa, pois o hábito de fumar foi introduzido pelos marinheiros portugueses apenas no século XVI.”
Há que se considerar também a preocupação de Ohsawa em afastar do público a idéia de que a Macrobiótica seria uma nova espécie de estoicismo: “Antigamente não podia fumar nem beber, e agora posso. Aprecio qualquer cozinha, ocidental, chinesa, japonesa ou indiana. Gosto de frutas, doces, chocolate e whisky. Se escolho algum destes alimentos, posso evitar más conseqüências, pois conheço o equilíbrio do yin e yang. Conto-lhes isto porque muita gente pensa que a macrobiótica é uma variedade de estoicismo própria do século XX. Mas aquele que não pode fumar, beber, comer fruta ou carne é um coxo. A macrobiótica é uma forma de construir a saúde que nos permite comer e beber de tudo quando o desejemos sem estarmos viciados nem sermos obrigados a fazê-lo. A macrobiótica não é uma forma negativa de viver: é positiva, criativa, artística, religiosa e filosófica.”
Nada disso, entretanto, justifica as lacunas de Ohsawa apontadas por Collins.
Houve tempos em que a expressão “Ohsawa disse” constituía um argumento de autoridade comparável somente aos utilizados pelos fanáticos religiosos. Oxalá tenha chegado a hora de reavaliar algumas idéias do sensei. O artigo de Collins dá uma contribuição importante nesse sentido. Do meu ponto de vista, são duas as principais críticas que o autor dirige às conclusões de Ohsawa sobre o cigarro: não ter aplicado o pensamento sistêmico, que, de resto, o distinguia; e não ter desconfiado, o mínimo que fosse, da validade da classificação inyológica, que, por sua própria natureza poética, não deixa de ser suscetível às mais diversas interpretações.
Em seu livro O Câncer e a Filosofia do Extremo-Oriente, Ohsawa invoca seu lado diabólico e investe contra o seráfico Alberto Schweitzer: “Seguramente a medicina moderna tem matado mais gente do que as guerras. Por que este monstruoso crime? É devido à total ignorância a respeito da vida. Um Schweitzer insiste sobre a importância da vida, porém mata bilhões de vidas microbianas todos os dias. Veja que exclusivismo humano!” (Lida esta passagem, podemo-nos perguntar: quem era de fato diabólico, Ohsawa ou Schweitzer?). Contudo, ao investigar o tabaco, Ohsawa, embora procedendo a uma exaustiva análise inyológica, assume inexplicavelmente a mesma visão limitada que critica em Schweitzer, esquecendo as questões éticas e ambientais – inexplicavelmente, porque Ohsawa costumava levar seus pensamentos até as últimas conseqüências. Basta lembrar aqui a seguinte correspondência por ele apresentada há mais de meio século com relação ao uso indiscriminado do papel: papel-árvore-floresta-desmatamento.
Nunca houve consenso entre os que empregaram a lógica do yin-yang. Aihara há tempos escreveu: “Ohsawa considerava as gorduras mais yang do que os óleos. Eu discordo. Desde que transformar gordura em óleo requer adição de calor, os óleos devem ser, portanto, mais yang do que as gorduras.” Parecem concordar, entretanto, quanto aos efeitos do processo de carbonização: a queima total expulsaria todos os elementos yin, conservando apenas a quintessência yang. Na produção do dentie é esse raciocínio que impera. Tradicionalmente, elabora-se o dentie da seguinte forma: por vários anos os cálices da berinjela são conservados sob pressão misturados com 20% de sal. Depois, submete-se a mistura à desidratação e carbonização. Expondo esta planta extremamente yin à influência do fogo, tempo, sal e pressão, todos fatores muito yang, acredita-se que a potente substância yin da berinjela é completamente eliminada, resistindo apenas sua profunda essência yang. Em sua análise do tabaco, Ohsawa se utiliza de lógica semelhante, a qual, porém, é luminosamente desmitificada por Collins.
A leitura do texto conduz-nos ainda a uma terceira crítica, esta não propriamente dirigida a Ohsawa, senão aos macrobióticos em geral.Vigora ainda em nosso meio, infelizmente, a idéia de que o alimento é todo-poderoso. Acreditamos que o Deus-alimento nos poupará de todas as doenças imagináveis e inimagináveis. Mais uma vez Collins escreve como um iconoclasta e nos fornece olhos para ver que vivemos numa época em que a tragédia ambiental impõe limites à terapêutica macrobiótica. O autocontrole deve romper as fronteiras do indivíduo e chegar à sociedade planetária: autocontrole individual e autocontrole social. Nossa saúde depende da saúde do planeta, e esta depende da espécie de luta que estamos dispostos a travar. Uma ótima arma para nos introduzir na luta em defesa da vida no planeta Terra é o livro de Marie-Monique Robin intitulado O Mundo segundo a Monsanto. Nele a autora relata como a transnacional Monsanto transformou o planeta-azul num enorme depósito de lixo químico. Por mais que nos alimentemos criteriosamente, nossos rins, fígados e intestinos – órgãos que lidam com as impurezas – não são capazes de nos defender, por exemplo, contra as calamidades que saem continuamente da caixa de Pandora da Monsanto. Nossa salvação está em reconhecer a importância da luta ecológica.
Por tudo isso, o artigo de Collins surge como um dos mais autocríticos da literatura macrobiótica. É para ler, assimilar e transmutar.
Reverência pela Vida?
Será que George Ohsawa estava completamente consciente dos perigos do tabaco para a saúde e o meio ambiente toda a vez que acendia um cigarro para contemplar a Ordem do Universo? Como Ohsawa justificava o uso do cigarro, considerando-se a destruição em massa de formas de vida resultante da pulverização de produtos químicos letais nas plantações de tabaco? Não foi ele próprio que escreveu sobre a importância da reverência por todas as formas de vida, e não apenas pela vida humana?
Um Pouco Mais do que Amarelo e Cinza
Ohsawa não procedeu a um longo discurso sobre os prós e os contras do tabaco. O que ele basicamente fez foi ensinar que a fumaça cinza da ponta em brasa do cigarro é yin, enquanto a fumaça amarela tragada pelo fumante é yang.
Ele provavelmente não tinha conhecimento dos mais de três mil produtos químicos presentes no tabaco, incluindo no mínimo sessenta comprovados carcinogênicos. Do contrário, será que endossaria o fumo, como fez seu discípulo Michio Kushi, que fumava Malboro sabendo dos ingredientes nocivos que tal produto continha? Só o açúcar representa 10% dos componentes do cigarro. E não é o açúcar, ao lado do LSD e da maconha, considerado uma droga pela macrobiótica?
Acreditam de fato os macrobióticos, ainda hoje, que o fogo (yang) de um simples fósforo neutralizará aqueles poderosos venenos (yin), enquanto a fumaça amarela é tragada e a fumaça cinza difundida no ambiente, persistindo por horas? Na verdade, é justamente a queima do tabaco que põe em ação a nicotina. De forma semelhante, uma parede de polietileno (yin) possui a função de reter o calor numa construção; mas assim que pega fogo, produz uma fumaça mortal. O fogo não neutraliza os componentes excessivamente yin nem do tabaco nem do polietileno, mas, ao contrário, atualizam sua atividade e poder de emissão.
Ohsawa, sem dúvida, era um sujeito sagaz, e suas experiências tornaram-se lendárias. Mas é preciso muito mais do que sagacidade e experiência para saber que alguns componentes invisíveis da fumaça do cigarro tornam-se carcinogênicos somente após serem ativados por enzimas específicas encontradas em vários tecidos do corpo. Pesquisa dedicada e instrumentos de precisão são imprescindíveis quando se quer mensurar e analisar como esses componentes ativados podem tornar-se parte de moléculas de DNA que interferem no crescimento normal das células.
Outras descobertas científicas indicam que a fumaça cinza gerada pela ponta acesa contém essencialmente os mesmos componentes da fumaça amarela tragada pelo fumante! Ohsawa, ao que parece, não fez seu dever de casa.
O “Inofensivo” Tabaco Natural
Recentemente conversei com dois macrobióticos veteranos que, não por acaso, são também fumantes veteranos. Homens de meia-idade, ambos afirmaram que fumam o que denominam “tabaco natural”, um produto supostamente isento de pesticidas químicos que não contém aditivo algum. Sem que eu me surpreendesse, cada qual defendeu o uso de cigarros acreditando que o tabaco em si não é perigoso, mas sim os produtos químicos contidos nas variantes industrializadas.
Este não deixa de ser um ponto de vista interessante, mas a nicotina por si só já é venenosa e carcinogênica – antes mesmo que sejam adicionados a ela pesticidas químicos. Desde que o tabaco natural não apresenta pesticidas, concentrações maiores de alcatrão e nicotina são encontradas nos cigarros com ele produzidos, bem como doses maiores de monóxido de carbono, cianeto de hidrogênio, amoníaco e hidrocarbonetos carcinogênicos.
Rasgando a Cartilha Macrobiótica
Anos atrás fui pegado de surpresa: meu médico revelou-me que eu havia contraído câncer na bexiga. Logo perguntou se eu havia feito uso do tabaco em algum período de minha vida. Quase todo câncer de bexiga no homem, disse-me ele, advém do hábito de fumar combinado com a exposição a outras toxinas ambientais. Os efeitos do cigarro são cumulativos, e como, à medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico vai-se deteriorando, um dia nossas células de defesa já não conseguem reconhecer nem combater eficazmente as células anormais do tecido da bexiga, prejudicada pelo vício prolongado do tabaco.
Pode parecer à primeira vista que um sistema imunológico potente constitui a chave da prevenção, tratamento e cura do câncer. Mas é claro que evitar as principais toxinas que provocam o crescimento anormal das células pode também exercer um papel considerável na prevenção das doenças.
A literatura macrobiótica recomenda o uso diário de sopa de missô com algas marinhas para ajudar a eliminar a nicotina acumulada no organismo dos fumantes. Há provavelmente uma semente de verdade nesta observação, pois o missô é produzido com soja fermentada, cujo poder antioxidante é extraordinário. No meu caso particular, entretanto, missô mostrou-se largamente ineficaz, sobretudo por tratar-se de alimento envelhecido (yang) e extremamente salgado (yang). Como o câncer de bexiga é provocado pela combinação de extremos yin e yang, isso pode indicar a necessidade de restringir o consumo de sal. Uma xícara de leite de soja fresco, fermentado e sem sal , contudo, fornece grande quantidade de antioxidantes que combatem o tumor em formação.
Um tumor, em geral, pode crescer apenas cerca de dois centímetros na bexiga. A partir daí, ele começa a criar vasos sanguíneos na parede do órgão para poder alimentar-se e continuar crescendo. Esse processo é denominado angiogênese. A soja é um dos únicos vegetais conhecidos que possui propriedades antiangiogênicas.
Há alguns meses tenho experimentado leite de soja caseiro e fermentado com amazake, pequenas quantidades de frutas frescas, ervas locais e malte de arroz. Com ingerir essa combinação, cheguei a recuperar os quinze quilos que havia perdido após duas internações.
Tofu, por outro lado, além de mais refinado, não é fermentado. A meu ver, ele não deveria ser usado em excesso por macrobióticos de qualquer região.
Limites de Macrobiótica
Porque vivemos num mundo hostil e altamente mecanizado, com resíduos industriais e carcinogênicos, somos testemunhas do suicídio coletivo que ocorre especial e subliminarmente através dos alimentos comerciais e do abastecimento de água. Nem mesmo o indivíduo mais consciente de nosso pequenino grupo de macrobióticos está imune à descarga, no ambiente, de toxinas invisíveis provenientes de fábricas, aviões, aerossóis, automóveis e outros agentes poluidores. Macrobióticos têm certas limitações que não podem ser perdoadas. A medicina alopática tem seu lugar também, e eu sou muito agradecido a ela. Permaneço vivo hoje por sua causa. Enquanto não formos capazes de eliminar radicalmente a poluição de nossos corpos e do planeta, temos de considerar a necessidade de métodos drásticos de tratamento.
Somos pessoas de carne e osso – e não super-homens! Nossos tecidos, órgãos, funções e sistemas são reais, não meras ficções. Se ninguém ainda teve a coragem de dizer que o rei está nu, deixem-me ser o primeiro: macrobióticos também ficam doentes, sofrem acidentes, divorciam-se, contraem câncer, são assassinados por terroristas, ficam carecas e morrem em guerras e terremotos.
DNA e predisposições hereditárias também desempenham um enorme papel no nosso destino sobre a Terra. No meu caso, a dieta nº 7 (exclusivamente arroz integral) fracassou, bem como a rigorosa dieta fornecida generosamente pelo grupo de Michio Kushi.
De fato, após três meses sob uma específica, focada e restrita dieta macrobiótica, meu urologista descobriu que o tumor tinha crescido numa velocidade maior do que anteriormente, quando eu vivia de um regime macrobiótico mais flexível. A Medicina Tradicional Chinesa foi praticamente inútil, embora eu tenha obtido resultados com uma simples erva chamada astragulus. Eu fervo, junto com kukicha, quatro ou cinco fatias dessa erva e sorvo o resultado cinco vezes diariamente. Astragulus é conhecido como um poderoso estimulante do sistema imunológico.
Podemos nos proteger do que contamina nosso planeta somente até certo ponto. Todos caminhamos por aí vulneráveis a vários níveis de chumbo, mercúrio, estrôncio 90 e DDT de épocas passadas. Por isso devemos combater, denunciando e protestando individual e coletivamente, tudo o que consideramos destrutivo para o nosso planeta. Eu, de minha parte, alerto contra o tabaco, pesticidas químicos, alimentos transgênicos, resíduos poluentes e contra a discriminação em todas as suas formas. O ato de fumar é um endosso do desrespeito pela vida.
A maioria dos fumantes macrobióticos está profundamente iludida em acreditar que o ato de fumar é uma inofensiva forma yang de prazer. Os fatos que apresentei indicam justamente outra coisa. Estou completamente convencido de que as estatísticas apresentadas são confiáveis e não parte de uma campanha difamatória, como um de meus amigos sugeriu. Deve ser verdade que há um poderosíssimo componente yang no cigarro, mas há 500 vezes mais extremo yin para aniquilar o yang! Após dois ou três cigarros, o alcatrão e resíduos do tabaco começam a tornar o sangue ácido. Uma condição ácida, como sabemos, requer minerais yang para contrabalançá-la. Estes minerais são fornecidos, principalmente pelo cálcio dos ossos. A correlação entre tabaco e osteoporose, assim como entre tabaco e a redução de vitaminas, especialmente a vitamina C, está bastante documentada. Fumar é viajar por uma estrada em cujo fim se encontra a morte.
Com sorte, esta informação servirá para ampliar a visão dos fumantes macrobióticos e encorajá-los a abandonar o cigarro. Talvez eu alcance apenas um deles, mas esse passará a mensagem à diante, e essa mensagem ajudará a salvar outros do sofrimento e morte prematura desnecessários.
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